Saúde em Foco | Mortes por câncer de próstata estão ligadas ao preconceito

15h05

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Brasil, o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens, apenas atrás do câncer de pele não-melanoma. Em 2018, estima-se que 68.220 homens descobriram o câncer de próstata e 15.391 morreram da doença.

Para o urologista doutor Davidson Bezerra da Silva, docente de nosso curso de Medicina, o fator que mais contribui para as mortes é o preconceito acerca do exame de diagnóstico. “O único modo de descobrir a doença precocemente é fazendo o exame de toque periodicamente após os 50 anos. É preciso deixar de lado o preconceito e pensar que, com esse rastreio de prevenção, a pessoa garante sua saúde, inclusive sexual”, enfatiza.

Em sua fase inicial, o câncer de próstata tem evolução silenciosa, ou seja, muitos pacientes não apresentam sintoma algum. Quando os sintomas estão presentes, normalmente na fase avançada, além da dor óssea, em caso de metástase, eles são semelhantes aos sintomas urinários do crescimento benigno da próstata. A única forma de fazer o diagnóstico do câncer de próstata é por meio da biópsia, que é realizada com o auxílio de ultrassonografia por via retal. Estima-se que 20% dos casos de câncer de próstata são diagnosticados exclusivamente pelo exame de toque retal. Logo, a dosagem de PSA e toque retal são exames complementares.

Para sanar dúvidas sobre o tema e acabar com o preconceito – se existir –, confira a entrevista com o Prof. Davidson:

Qual a diferença entre o exame de sangue e o de toque para um diagnóstico preciso e precoce?

No exame de sangue dosamos o PSA, que é uma proteína produzida quase que exclusivamente pela próstata. No entanto, além do câncer de próstata, várias alterações prostáticas podem levar ao aumento no valor do PSA. Uma delas é a Hiperplasia Prostática Benigna, que como o próprio nome diz, é um crescimento benigno da próstata, presente em quase 50% dos homens com idade superior a 50 anos. Outra alteração é ocasionada pela Prostatite, que se trata de uma inflamação da próstata. No caso do toque retal, apesar de desconfortável, sua realização é fundamental, pois a detecção de qualquer alteração prostática (endurecimento e/ ou presença de nódulos) é indicativo da necessidade da realização de biópsia de próstata (que confirma a presença do câncer de próstata) via ultrassonografia retal. Nos dias após o procedimento, pode haver desconforto com presença de sangue na urina e/ ou no sêmen, bem como infecção na próstata, tendo a necessidade, em alguns casos, de tratamento com antibiótico. É possível a utilização de exames de imagem em paciente com indicação clínica para biópsia, como a ressonância magnética multiparamétrica de próstata, que pode indicar a probabilidade de encontrar um câncer de próstata significativo utilizando a escala PI-RADS, porém, apenas sugere, não sendo possível fechar o diagnóstico.

O exame de toque também serve para identificar outras doenças ou neoplasias benignas?
O toque retal serve para medir o tamanho da próstata, consistência (dureza, aspereza), presença (ou não) de nódulos, seus limites, se é dolorosa ao toque, entre outras alterações. Além disso, apesar de não ser o objetivo principal, aproveita-se o toque retal para a pesquisa de doenças orificiais, tais como hemorroidas e fissura anal e avaliação da ampola retal (pesquisa de tumores do canal anal). É possível identificar também a Hiperplasia Prostática Benigna (crescimento benigno da próstata) pelo toque retal.

Com que idade o homem precisa começar o rastreio? 

A Sociedade Brasileira de Urologia recomenda que os homens iniciem a avaliação prostática, no intuito de rastrear o câncer da próstata, aos 50 anos. Porém, homens negros, obesos mórbidos ou que tenham parentes de primeiro grau (pai ou irmãos) com histórico de câncer de próstata, devem começar a avaliação aos 45 anos. A partir disso, a avaliação precisa ser realizada anualmente, por meio da dosagem de PSA (exame de sangue) e pelo toque retal.

O câncer de próstata está ligado a fatores genéticos?

Sim, o câncer de próstata está ligado a fatores genéticos. Homens que tenham um parente de primeiro grau (pai e irmãos) acometido pela doença têm chance duas vezes maior de também ter a doença. Caso tenham dois parentes de primeiro grau acometidos, a chance aumenta para seis vezes.

Há alguma prevenção quanto a alimentação?

Alguns estudos sugerem que o consumo de gordura de origem animal possa aumentar a chance do desenvolvimento do câncer de próstata, porém, ainda não foi comprovado que a diminuição do consumo possa proporcionar qualquer benefício em relação a esta doença, logo, ainda não há nenhuma prevenção comprovada.

Um paciente tratado com câncer, curado, pode ter sequelas?

Apesar de não serem comuns, pacientes submetidos ao tratamento curativo para o câncer de próstata podem ter algumas sequelas. No caso daqueles submetidos a cirurgia, as mais comuns são a disfunção erétil e a incontinência urinária. Já aqueles submetidos a radioterapia podem evoluir com ardor para urinar, sangramento na urina, sangramento nas fezes e disfunção erétil, sendo que esta última pode surgir mais tardiamente, aproximadamente dois anos após o tratamento.

Este câncer pode ser seguido de uma metástase? 

Sim, é possível. Os locais mais comuns de metástase são a coluna e linfonodos pélvicos. Cerca de 20% dos pacientes com câncer de próstata são diagnosticados em estágios avançados, justamente por não fazerem o exame de rastreio e quando os sintomas começam a aparecer, 95% dos casos já estão em fase adiantada. Caso o câncer seja diagnosticado em fase precoce, a chance de cura é de 90%. Por isso é muito importante realizar o exame anualmente a partir da idade indicada.

Como é o tratamento para o câncer de próstata?

O tratamento depende do estágio em que ele foi diagnosticado. Caso a doença esteja confinada à próstata, as duas principais opções de tratamento são: a prostatectomia radical, que é a retirada total da próstata, e a radioterapia pélvica, que tem o intuito de “queimar” o tumor. Se a doença estiver um pouco mais avançada (localmente avançada), porém, ainda não metastática, é possível a associação de radioterapia ao bloqueio hormonal para obter melhor sucesso oncológico. Entretanto, no caso de doença metastática (quando o câncer se espalhou para outras partes do corpo), o tratamento restringe-se ao bloqueio hormonal.

Quais outras doenças da próstata são comuns e o que elas causam?

Além do câncer, as doenças mais comuns, que podem acometer a próstata, são a Hiperplasia Prostática Benigna e a Prostatite. Nos casos em que o paciente é portador de Hiperplasia Prostática Benigna, quando sintomática, o paciente precisa fazer força para urinar, o jato urinário é fraco, tem a sensação que reteve urina na bexiga mesmo após urinar e levanta muito a noite para ir ao banheiro. Na Prostatite, além da dificuldade para urinar, o paciente também pode apresentar dificuldade para urinar, dor no ânus e/ou ao ejacular. Em casos mais graves, aparecem febre e indisposição podem estar presentes.