Anhembi Morumbi promove discussão sobre sustentabilidade na mídia

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Evento nesta quarta-feira contará com a presença da jornalista portuguesa Sandrine Lage e do publicitário Percival Cardoso

Nesta quarta-feira (12/05), acontece na Universidade Anhembi Morumbi o Colóquio de Comunicação sobre Mídia e Sustentabilidade. Na ocasião, a jornalista portuguesa Sandrine Lage, que acaba de lançar no Brasil o livro “O Poder de (in)Formar”, trabalho no qual faz uma análise sobre a sustentabilidade na mídia, irá conversar com os alunos do curso de Jornalismo e participará de uma mesa de discussão, que também contará com a presença do publicitário Percival Caropreso, fundador da Setor 2 ½, empresa que presta assessoria em Sustentabilidade e Responsabilidade Ambiental para diversas instituições.

Sandrine, que é formada em Televisão, Gestão de RH e responsabilidade social e empresarial, defendeu em 2008 a tese “Como Melhorar a Comunicação da Sustentabilidade nos Media”, na conclusão do curso Master Programme Design for Sustentability, que realizou na Universidade de Cranfield, no Reino Unido. Segundo a jornalista, estudos revelam que a sustentabilidade vem ganhando espaço nos noticiários pelo mundo, porém, essa cobertura ainda não é feita com a qualidade necessária. “A quantidade não é suficiente, nem se revelou eficiente para a mudança de comportamentos”, afirma. Ainda de acordo com Sandrine, a imprensa brasileira sofre do mesmo problema, mas alguns veículos já realizam uma cobertura rica e aprofundada. “A minha intenção é levar realizar uma pesquisa na mídia brasileira ainda em 2010”, conta.

O publicitário Percival Caropreso levará para o colóquio o conhecimento adquirido durante seus 40 anos de carreira. Caropreso, que já foi Vice-Presidente Executivo da McCann-Erickson Mundial, é militante de causas socioambientais há 20 anos e atua como conselheiro de diversas entidades voltadas à responsabilidade social, como o Instituto Saúde e Sustentabilidade, o Movimento Nossa São Paulo, a Comissão de Responsabilidade Socioambiental da Indústria da Propaganda e o Comitê de Comunicação da Sustentabilidade da ABA (Associação Brasileira de Anunciantes).

A discussão da próxima quarta-feira será mediada pelo professor Maurício Homma, coordenador de Responsabilidade Social da instituição. O encontro acontece às 19h30, no Auditório Theatro Casa do Ator, que fica na unidade Vila Olímpia, localizada na Rua Casa do Ator, 275. As inscrições para estudantes interessados em formar a platéia do colóquio devem ser feitas na página http://www.zoomerang.com/Survey/WEB22ALK3DCPMK, e vão até o preenchimento das vagas.

Confira um pingue-pongue com a jornalista Sandrine Lage:

– No seu livro, você estuda a agenda de sustentabilidade do jornal The Guardian. O que te motivou a escolher esse veículo para sua análise?
SL: Essencialmente, o fato de ser uma referência no setor a nível mundial. Quer pela abordagem dos conteúdos editoriais, quer pelas pioneiras práticas de gestão. Este último ponto, estando completamente ausente do setor da mídia, em geral.
 
– Você acredita que os temas relacionados à sustentabilidade estejam ganhando mais espaço na mídia internacional? Por quê?
SL: É a evolução de um tema ao qual não podemos virar as costas porque está presente na nossa vida. Diversos estudos apontam para uma maior publicação de artigos relacionados à sustentabilidade. Contudo, se este primeiro passo é positivo, temos de passar ao seguinte: comunicar com qualidade. A quantidade não é suficiente, nem se revelou eficiente na contribuição para a mudança de comportamentos.
 
– Quais os fatores impedem que a sustentabilidade seja abordada de maneira mais clara e imparcial pela imprensa?
SL: Um dos fatores mais inibidores é o fato da mídia ser controlada e dominada por grupos empresariais. Ou seja, os interesses dos acionistas e anunciantes prevalecem, em detrimento de uma única meta de independência e qualidade editorial.
Por outro lado, a ausência de formação. O tema é complexo e por isso necessita de capacitação por parte dos jornalistas, editores e gestores. Não há soluções fáceis a apresentar. Mesmo as soluções aparentes (como o caso do etanol, por exemplo) criam outros problemas. É necessário imaginar uma outra perspectiva: na região onde moro, estão querendo construir mais uma ponte para escoar mais o trânsito. Contudo, já existem duas pontes. A terceira pode até escoar o trânsito no início, mas o que vai acontecer a médio, longo prazo? Como a existência de uma terceira ponte, as pessoas vão adquirir mais carros ou abandonar o transporte público. Adicionalmente, as câmaras (prefeituras) se encarregarão – como é habitual – de construir mais imóveis, etc. Conclusão: está-se se adiando um problema e não resolvendo o mesmo. A solução passa por haver uma rede de transportes mais eficiente, por limitar a construção em função dos acessos. Se destrói uma casa de dois andares e constrói um edifício de 20 andares, mantendo os mesmos acessos, é natural que surjam mais problemas de trânsito. Com isso, se arrasta menor qualidade de vida. Enfim, o que sugiro é que haja uma reflexão e um aprofundamento da discussão da solução com vários especialistas, antes de vender a solução como “A” solução.
Outro tópico é o fato de, inicialmente, restringir e limitar a temática a uma editoria ou um setor, quando, idealmente, a sustentabilidade deveria ser transversal e estar integrada no mindset de qualquer jornalista ou editor, assim como fazer parte do DNA da organização.

 
– Você já fez algum estudo parecido nas mídias brasileiras?
SL: Li sobre os estudos publicados pelo Instituto Ethos nessa área, o que me ajudou definitivamente a ter uma noção. Mas é minha intenção realizar uma pesquisa na mídia brasileira ainda em 2010. Estamos procurando o parceiro certo para levar a pesquisa adiante.
 
– Como você vê a abordagem do tema na mídia brasileira?
SL: Creio que vive os mesmo dilemas que a mídia em geral, contudo, confesso que leio muita informação em meios brasileiros especializados como a Envolverde ou a Ideia Sustentável. São bem ricos em qualidade de informação.
 
– Você acha que apenas a ampla cobertura da imprensa é capaz de conscientizar a população sobre o consumo consciente? Os jornais cumprem esse papel?
 SL: O papel dos jornais é informar. Se “formam” como consequência, é o ideal. Diversos estudos revelam que sim. Que contribuem, inclusive, para uma maior qualidade de democracia quando existem, logo para uma população mais informada. Se as pessoas estão mais bem informadas, podem fazer escolhas mais conscientes. Depende muito da postura individual, também. Cabe a cada um de nós dar o exemplo no nosso dia-a-dia, como cidadãos e profissionais. Questionarmos-nos diariamente, nas menores ações que sejam.

– Na sua opinião, qual é o papel do jovem universitário no futuro da comunicação da sustentabilidade?
 SL: São os futuros profissionais, portanto têm todo o poder em suas mãos (e mentes). Como carregam nas costas uma herança pesada (a de um planeta sob-explorado), terão de pensar em soluções e tornarem-se cúmplices das mesmas, antes que a natureza imponha essa mudança. Mais do que uma mudança, adivinha-se uma mutação. Senão o principal, creio que o papel do jovem universitário nesse cenário é determinante. E as expectativas caem sobre eles mesmo para quebrar o status quo e construir outra base, com o apoio das novas tecnologias, mas essencialmente com foco na adoção de novos comportamentos. Só com a comunicação é possível cumprir essa missão.