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Outra natureza da cor da pele

Cidade de Deus foi criticado por fazer “cosmética” das mazelas sociais brasileiras e representar o negro de forma estereotipada. Para a pesquisadora Célia Cristina Torres, o filme vai além da cor da pele.

Célia Cristina Torres
ESPECIAL PARA O POVO

Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, está para o cinema brasileiro dos anos 2000 como Rio 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos, estava para o cinema brasileiro dos anos 1950. Há quem diga, até, que ele seria o neto fashion e tatuado de Rio 40 Graus. É possível pensar que cada um deles reflete a nossa realidade ao seu modo: enquanto Rio 40 Graus apresenta uma realidade próxima, pois os garotos pobres e negros circulam entre a população, Cidade de Deus apresenta uma realidade distante, pois os personagens estão imersos na própria Cidade de Deus fazendo-nos acreditar que se trata de um mundo a que não pertencemos. Esse possível distanciamento provocado pelo filme levou alguns pesquisadores brasileiros a acusá-lo de promover uma espécie de “cosmética” das mazelas sociais e econômicas do país.

Uma das questões polêmicas e que mais renderam críticas à adaptação do livro de Paulo Lins (1997) foi em relação à representação do negro de forma estereotipada e ligada essencialmente à marginalidade. Mas, em geral, assim como o carimbo de “cosmético”, as leituras negativas feitas do filme a partir desse aspecto não se sustentam, pois é possível compreender a representação do negro no filme de outras formas. A partir da análise descritiva de personagens centrais muito diferentes entre si (Buscapé, Zé Pequeno, Bené e Mané Galinha) podemos perceber que todos eles têm destinos diferentes dentro de uma narrativa que privilegia o contexto social e não a discussão racial.

Buscapé (Alexandre Rodrigues) é o tipo de personagem conformado com a realidade do lugar em que vive, ele não luta nem contra e nem a favor do sistema. Vive entre os extremos entre ser um bom rapaz ou se tornar um bandido, mas todas as suas tentativas para o crime fracassam. Ele é o contrário do que se pode imaginar de um personagem que vive em meio a uma guerra e ao tráfico de drogas. Toda a narração do filme é criada para que o público tenha afeição por ele, através de toda sua sensibilidade e falta de jeito para o crime, afinal é o próprio Buscapé o narrador em off. Pode-se afirmar que Buscapé é um personagem neutro, um falso protagonista. Seu papel é ser um elo entre os acontecimentos: ele está dentro, mas ao mesmo tempo fora, não realizando julgamento moral sobre os outros personagens e suas ações.

A história do traficante Zé Pequeno (Leandro Firmino) retoma a sua infância, ainda como Dadinho, um garoto que queria ser respeitado pelos adultos. Como não tinha referência familiar, para ele os bandidos eram os heróis. Várias cenas mostram Dadinho tentando parecer mais velho para ser aceito no grupo de bandidos: óculos escuros, gestos de regente de escola de samba, ele dá todos os indícios de que é bastante esperto para sua idade. As cenas dessa fase do filme apresentam em todos os momentos os tijolos cercando os moradores, principalmente Dadinho, demonstrando que algo está em construção, seja a Cidade de Deus ou a personalidade dele. Quando adulto, é através de um ritual de quimbanda que ele busca proteção e glória para a sua nova empreitada (matar os traficantes da favela). A voz de um pai de santo no terreiro abre a sequência do ritual: “Suncê fala nada que já sei que suncê qué. Suncê qué poder… De menino não se chama mais Dadinho, de menino chama Zé Pequeno, Zé Pequeno, Zé Pequeno pra crescer”. Durante a narrativa, Dadinho, transformado em Zé Pequeno, consegue atingir parte de seus objetivos, até seu declínio e a emboscada final. Como personagem, seu crescimento equivale à genealogia do bandido, durante três décadas de vida.

Já Bené (Phellipe Haagensen), o personagem “gente boa” e comparsa de Zé Pequeno, é irmão de um bandido, uma espécie de herança dos primeiros bandidos do local. É o oposto de Zé Pequeno: leal, simpático e amigo, carregando consigo um instinto de valorização à vida. A transformação de Bené parece um momento à parte do filme: todos os conflitos e vendas de drogas parecem ser suspensos para que ele possa se transformar, tornando-se apenas um assíduo consumidor de cocaína, com o sonho de ir embora da Cidade de Deus com sua namorada – é a curva mais importante do personagem, seu desprendimento pelo mundo do crime.

Por fim, nas primeiras aparições de Mané Galinha (o cantor e compositor Seu Jorge) pouco se nota a importância do personagem. Ele, quase sempre localizado no canto do enquadramento, é vítima de humilhações por parte dos traficantes. Mas há algo de diferente nele: Zé Pequeno, o traficante que nunca deixa um inimigo vivo, tem uma severa implicância com Mané Galinha, porém sempre o deixa vivo. A primeira cena em que Mané Galinha aparece é no aniversário de 18 anos de Zé Pequeno. A comemoração acontece na rua e Mané Galinha está no bar ao fundo. O personagem de Mané Galinha depende das atitudes de Zé Pequeno para seu desenvolvimento, até se consolidar como seu maior antagonista. As sequências dos assaltos definem o personagem Mané Galinha: após entrar para a vida do crime, com a mesma rapidez que ele cria suas regras ele também as quebra. Mané Galinha perde o controle e adere de vez ao mundo do tráfico: rapidamente é possível vê-lo negociando e comprando armas. Tal episódio marca a sua transformação. Ele já não é mais o bom moço, da era “paz e amor”, agora ele entra na batalha “de cabeça” para se vingar. Agora ele mata e arma crianças, pequenos soldados que irão defender seu território.

De acordo com a breve descrição desses quatro personagens, nota-se um crescimento considerável de todos eles dentro da narrativa, independente de questões raciais. Todos passaram por um conflito de identidade para se fortalecer em algum aspecto dentro da história: Dadinho teve que se tornar Zé Pequeno para ter força suficiente para continuar no crime; Bené virou “cocota” para morrer como herói da história; Mané Galinha virou herói porque virou bandido e se tornou a única opção da sociedade para acabar com as maldades de Zé Pequeno; e Buscapé, no final do filme, virou Wilson Rodrigues, fotógrafo profissional.

Justamente por isso é possível dizer que Cidade de Deus foge da representação estereotipada dos negros no cinema brasileiro, por não colocar a questão racial como foco de seu enredo e de sua narrativa. A discussão é de outra natureza, e para tanto o filme apoia-se muito mais na caracterização arquetípica de personagens ficcionais, com suas jornadas e trajetórias bem construídas e articuladas, para muito além da cor da pele.

Célia Cristina Torres é Mestre em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi e autora da dissertação de mestrado Representações do Negro em Cidade de Deus, de 2008.

Matéria foi publicada, originalmente, no site O Povo. Para acessá-la, clique aqui

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